domingo, 1 de maio de 2016
Milan Kundera
os testamentos traídos
Tentem reconstruir um diálogo de sua própria vida, o diálogo de uma briga ou um diálogo de amor. As situações mais caras, as mais importantes, ficam perdidas para sempre. O que sobra delas é seu sentido abstrato (defendi esse ponto de vista, ele um outro, fui agressivo, ele defensivo), eventualmente um ou dois detalhes, mas o concreto acústico-visual da situação em toda a sua continuidade fica perdido.
E não apenas fica perdido, mas nem ao menos ficamos espantados com essa perda. Ficamos resignados com a perda do concreto no tempo presente. Transformamos de imediato o momento presente em sua abstração. Basta contar um episódio que vivemos há poucas horas: o diálogo se encolhe num breve resumo, o ambiente em alguns dados gerais. Isto é válido até mesmo para as lembranças mais fortes que, como um traumatismo, se impõem ao espírito: ficamos de tal modo fascinados por sua força que não nos damos conta a que ponto seu conteúdo é esquemático e pobre.
Se estudamos, discutimos, analisamos uma realidade, a analisamos tal qual ela aparece em nosso espírito, em nossa memória. Só conhecemos a realidade do tempo passado. Não a conhecemos tal qual ela é no momento presente, no momento em que acontece, em que é. Ora, o momento presente não se parece com sua lembrança. A lembrança não é a negação do esquecimento. A lembrança é uma forma de esquecimento.
Podemos manter assiduamente um diário e anotar todos os acontecimentos. Um dia, relendo as notas, compreendemos que elas não são capazes de evocar uma só imagem concreta. E, pior ainda: que imaginação não é capaz de socorrer nossa memória e de reconstruir o esquecido. Pois o presente, o concreto do presente, como fenômeno a ser examinado, como estrutura, é para nós um planeta desconhecido; não sabemos portanto nem como retê-lo em nossa memória nem como reconstruí-lo pela imaginação. Morremos sem saber que vivemos.
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Jia Zhang-ke
Dedicatória ao Festival Internacional do Filme Documentário de Yamagata
Quando eu era menino, gostava de parar na rua para observar as pessoas. Os desconhecidos que iam e vinham despertavam em mim uma inexplicável sensação de afeto. Às vezes, eu me perguntava se a vida que levavam era igual à minha, se o quarto de dormir, a alimentação, os objetos sobre a mesa, as famílias, as preocupações deles eram semelhantes às minhas. A possibilidade de perder a curiosidade pelos outros me apavora. Realizar documentários me ajuda a superar esse temor.
O homem perde facilmente o sentido de sua proximidade com os outros. Na verdade, o nosso mundo é povoado por pouquíssimas pessoas. O documentário pode alargar o nosso universo, romper a nossa solidão. E, o que é ainda mais importante, no momento da filmagem, o espírito de justiça e de coragem que ameaçava abandonar o meu corpo retorna. A filmagem me permite voltar a sentir a dignidade da existência de cada um, inclusive da minha.
O cinema é uma maneira de preservar a memória das coisas. O documentário nos ajuda a conservar os traços daquilo que se passou. É um meio de resistir ao esquecimento.
domingo, 6 de dezembro de 2015
Charles Baudelaire
o pintor da vida moderna
Quando, enfim, encontrei-o, vi imediatamente que me defrontava não exatamente com um artista, mas, antes, com um homem do mundo. Entendam aqui, suplico-lhes, a palavra artista num sentido muito restrito, e a expressão homem do mundo num sentido amplo. Homem do mundo, isto é, homem do mundo inteiro, homem que compreende o mundo e as razões misteriosas e legítimas de todos os seus usos; artista, isto é, especialista, homem preso à sua palheta como o servo à sua gleba. O Sr. G. não gosta de ser chamado de artista. Não tem ele um pouco de razão? Ele se interessa pelo mundo inteiro; quer saber, compreender, apreciar tudo o que se passa na superfície de nosso esferóide. O artista vive muito pouco, ou mesmo nada, no mundo moral e político. O que mora no quartier Breda ignora o que se passa no faubourg Saint-Germain. Salvo dias ou três exceções que não vale a pena mencionar, os artistas, em sua maioria, são, é preciso dizê-lo, uns brutos muito hábeis, simples trabalhadores braçais, inteligências interioranas, mentalidades de arrebalde. sua fala, forçosamente limitada a um círculo bastante estreito, torna-se muito rapidamente insuportável para o homem do mundo, para o cidadão espiritual do universo.
Assim, para chegar a compreender o Sr. G., tomem imediatamente nota disso: a curiosidade pode ser considerada como o ponto de partida de seu gênio.
domingo, 29 de novembro de 2015
Gonçalo Tavares
o homem mal-educado
O MAL-EDUCADO não tirava o chapéu em nenhuma situação. Nem às senhoras quando passavam, nem em reuniões importantes, nem quando entrava na igreja.
Aos poucos a população começou a ganhar repulsa pela indelicadeza desse homem, e com os anos esta agressividade cresceu até chegar ao extremo: o homem foi condenado à guilhotina.
No dia em questão, colocou a cabeça no cepo, sempre, e orgulhosamente, com o chapéu.
Todos aguardavam.
A lâmina da guilhotina caiu e a cabeça rolou.
O chapéu, mesmo assim, permaneceu na cabeça.
Aproximaram-se, então, para finalmente arrancarem o chapéu àquele mal educado. Mas não conseguiram.
Não era um chapéu, era a própria cabeça que tinha um formato estranho.
sábado, 14 de novembro de 2015
João Moreira Salles
a dificuldade do documentário
"O cinema é a única arma que possuo para mostrar ao
outro como eu o vejo. (Jean Rouch)
De modo geral, desde Flaherty, podemos dizer que todo
documentário encerra duas naturezas distintas. De um lado, ele é o
registro de algo que aconteceu no mundo; de outro lado, é narrativa,
uma retórica construída a partir do que foi registrado. Nenhum
filme se contenta em ser apenas registro. Tem sempre também a
ambição de ser uma história bem contada. A camada retórica que se
sobrepõe ao material bruto, esse modo de contar o material, essa
oscilação entre documento e representação, constituem o
verdadeiro problema do documentário. Nossa identidade está
intimamente ligada ao convívio complicado dessas duas naturezas.
É útil aqui fazer uma distinção entre compreensão
não-ficcional e artefato não-ficcional. A compreensão não-ficcional
nos permite perceber o que há de indicial em toda imagem, até mesmo
naquelas que pertencem ao campo da ficção. Já o artefato
não-ficcional — e o documentário certamente é um deles —
independe dos usos individuais que se façam dele. Ele é uma
convenção, um fenômeno social. É possível que, numa aula a
respeito das técnicas vocais de atrizes americanas durante os anos
de ouro do musical americano, O mágico de Oz possa ser analisado
como documentário, mas seria um erro conceitual classificá-lo
assim. Ele é, e será sempre, um filme de ficção no qual as
pessoas cantam. É a história do cinema que diz assim. Por sua vez,
Nanook do Norte nunca deixará de ser um documentário.
Uma pessoa filmada por mim é um conjunto de imagens
partidas: primeiro, a pessoa vista, ao alcance da mão, do olfato, da
audição; um rosto percebido na escuridão do visor; uma lembrança,
às vezes fugidia, às vezes de uma clareza lapidar; um conjunto de
fotogramas numa ilha de edição; algumas fotografias; e finalmente a
figura se movendo na tela do cinema. (David MacDougal)
MacDougal lembra que, uma vez pronto, o filme
representa, para o espectador, tudo; já para o diretor, representa
muito pouco. Para ele — que teve o personagem diante de si, que
respirou o mesmo ar da sala em que se encontraram; que sentiu com ele
frio, se estava frio, ou calor, se estava calor; que riu, se
interessou ou se aborreceu com o que foi dito —, o filme é uma
redução da complexidade, uma diminuição da experiência. Ou, para
sermos mais otimistas, é, no mínimo, a construção de uma outra
experiência. Nela, a pessoa, cada vez mais distante, cede lugar a
algo próximo, o personagem. Ao longo desse processo em que uma
pessoa é transformada em personagem, inevitavelmente dados vão
sendo perdidos. A falta do aperto sincero de mão quando chegamos
sonega a informação de que o personagem foi gentil, e assim também
a água oferecida, ou o café que foi buscar na cozinha. Todo diretor, quando mostra seu filme na televisão de casa, tem
necessidade de falar: “Logo depois desse corte ele disse...”;
“Isso foi logo depois que chegamos”; “Nessa hora passou um
avião e tivemos que interromper”; “Aqui ele começou a perceber
que precisávamos terminar”; “Ela nos recebeu assim mesmo, toda
arrumada, pintou-se...”.
Nós sabemos que a pessoa só poderá se definir durante os poucos momentos em que a câmera estiver ligada. Ela não sabe.
Nós sabemos que a pessoa só poderá se definir durante os poucos momentos em que a câmera estiver ligada. Ela não sabe.
Depois de algumas semanas na ilha de edição, o diretor
se torna refém do filme. A compreensão do tema impõe suas
prioridades e a estrutura conduz a narrativa por caminhos
determinados, nos quais certos desvios se revelam impraticáveis. É
com pena que o documentarista abandona todos esses outros filmes
hipotéticos. São possibilidades não realizadas, derrotadas pela
lógica do filme e por exigências da estrutura. O paradoxo é este:
potencialmente, os personagens são muitos, mas a pessoa filmada é
uma só. Aqui, precisamente, reside, para mim, a verdadeira questão
do documentário. Sua natureza não é estética, nem epistemológica.
É ética."
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
Wislawa Szymborska
nota de agradecimento
debo mucho
a quienes no amo.
el alivio con que acepto
que son más queridos por otro.
la alegría de no ser yo
el lobo de sus ovejas.
estoy en paz con ellos
y en libertad con ellos,
y eso el amor ni puede darlo
ni sabe tomarlo.
no los espero
en un ir y venir de la ventana a la puerta.
paciente
casi como un reloj de sol
entiendo
lo que el amor no entiende;
perdono
lo que el amor jamás perdonaría.
desde el encuentro hasta la carta
no pasa una eternidad,
sino simplemente unos días o semanas.
los viajes con ellos siempre son un éxito,
los conciertos son escuchados,
las catedrales visitadas,
los paisajes nítidos.
y cuando nos separan
lejanos países
son países
bien conocidos en los mapas.
es gracias a ellos
que yo vivo en tres dimensiones,
en un espacio no-lírico y no-retórico,
con un horizonte real por lo móvil.
ni siquiera imaginan
cuánto hay en sus manos vacías.
"no les debo nada",
diría el amor
sobre este tema abierto.
domingo, 1 de novembro de 2015
Adélia Prado
amor feinho
eu quero amor feinho.
amor feinho não olha um pro outro.
uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
tudo que não fala, faz.
planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
amor feinho é bom porque não fica velho.
cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
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