segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mia Couto



poema da despedida
  
não saberei nunca
dizer adeus
 
afinal,
só os mortos sabem morrer
 
resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
 
talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
 
não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
 
agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
 
nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
ainda assim,
escrevo

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Bill Nichols



introdução ao documentário 

Dito de outra forma, os documentários normalmente contêm uma tensão entre o específico e o geral, entre momentos únicos da história e generalizações. Sem a generalização, os documentários em potencial seriam pouco mais do que registros de acontecimentos e experiências específicas. E se não fossem nada além de generalizações, seriam pouco mais do que tratados abstratos. É a combinação das duas coisas, dos planos e cenas individuais que nos colocam num determinado tempo e lugar, e a organização desses elementos em um todo maior, que dão poder e fascínio ao vídeo e ao filme documentário. 

[...]

A seleção e o arranjo de sons e imagens são sensuais e reais; proporcionam uma forma imediata de experiência auditiva e visual, mas também se tornam, por intermédio da organização num todo maior, uma representação metafórica do que seja uma determinada coisa no mundo histórico. 

[...]

Pode ser que conheçamos a definição de dicionário para essas práticas sociais e, ainda assim, desejemos representações metafóricas para nos ajudar a compreender que valores associar a essas práticas sociais. Os documentários nos dão a sensação de que podemos entender como os outros atores sociais experimentam situações e acontecimentos que se encaixam em categorias familiares (vida familiar, assistência médica, orientação sexual, justiça social, morte e assim por diante). Os documentários proporcionam uma orientação sobre a experiência de outros e, por extensão, sobre as práticas sociais que compartilhamos com eles. 

Se aceitaremos como os nossos os pontos de vista e os argumentos dos documentários, isso depende muito do poder estilístico e retórico do filme. A oscilação entre o específico e o geral no documentário, entretanto, resulta da eficácia da permissão para que uma representação específica signifique (metaforicamente) uma orientação ou avaliação geral de uma determinada questão ou tema. A compreensão metafórica é muitas vezes a maneira mais significativa e persuasiva de nos convencer do mérito de um ponto de vista em relação a outros. 

[...]

Nos documentários, portanto, falamos de assuntos que ocupam nossa vida da forma mais apaixonada e perturbadora. Esses assuntos seguem os caminhos de nosso desejo, conforme chegamos a um acordo com o que significa assumir uma identidade, ter uma ligação íntima e particular com alguém e pertencer a uma coletividade. Identidade pessoal, intimidade sexual e pertença social são outra maneira de definir os assuntos do documentário. 

[...] 

O interesse desses cineastas e escritores não era abrir um caminho livre e desobstruído para o desenvolvimento de uma tradição documental que ainda não existia. Seu interesse e sua paixão eram a exploração dos limites do cinema, a descoberta de novas possibilidades e de formas ainda não experimentadas. O fato de alguns desses trabalhos terem se consolidado no que hoje denominamos documentário acaba por obscurecer o limite indistinto entre ficção e não-ficção, documentação da realidade e experimentação da forma, exibição e relato, narrativa e retórica, que estimularam esses primeiros esforços. A continuação dessa tradição de experimentação foi o que permitiu que o documentário permanecesse um gênero ativo e vigoroso. 

Uma forma corrente de explicar a ascensão do documentário inclui a história do amor do cinema pela superfície das coisas, sua capacidade incomum de captar a vida como ela é; capacidade que serviu de marca para o cinema primitivo e seu imenso catálogo de pessoas, lugares e coisas recolhidas em todos os lugares do mundo. Como a fotografia antes dele, o cinema foi uma revelação. As pessoas nunca tinham visto imagens tão fiéis a seus temas nem testemunhado movimento aparente que transmitisse sensação tão convincente de movimento real.

[...]

Assim como um conjunto mutável de circunstâncias, o desejo de propor maneiras diferentes de representar o mundo também contribui para a formação de cada modo. Modos novos surgem, em parte, como resposta às deficiências percebidas nos anteriores, mas a percepção da deficiência surge, em parte, da ideia do que é necessário para representar o mundo histórico de uma perspectiva singular num determinado momento.  

[...]

Fazemos bem em aceitar com reservas quaisquer afirmações de que um modo novo faz progredir a arte cinematográfica e capta aspectos do mundo como jamais foi possível. O que muda é o modo de representação. Um modo novo não é melhor, ele é diferente, embora a ideia de "aperfeiçoamento" seja frequentemente alardeada, especialmente entre os defensores e praticantes de consequências, e, por sua vez, acabará se mostrando vulnerável à crítica pelas limitações que um outro modo de representação prometa ultrapassar. Modos novos sinalizam menos uma maneira melhor de representar o mundo histórico do que uma forma dominante de organizar o filme, uma nova ideologia para explicar nossa relação com a realidade um novo conjunto de questões e desejos para inquietar o público.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Tjiske Jansen



para os anos dele

sei qual é cor em que prefere calçar-se.
sei qual é a cor em que prefere vestir-se.

porém, caminhar não é o mesmo que dormir
e usar não é o mesmo que acordar.

portanto perguntei-lhe: qual é a tua cor preferida para dormir,
qual é a tua cor preferida para acordar?

a cor dos teus olhos, respondeu-me. a cor da tua pele.
não fui à procura. não necessito de andar à procura para saber que
não existe nenhuma loja que venda edredões nessas cores.
não há outra solução a não ser dormir
com ele para sempre.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Adélia Prado



ensinamento 

minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
não é.
a coisa mais fina do mundo é o sentimento.
aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“coitado, até essa hora no serviço pesado”.
arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
não me falou em amor.
essa palavra de luxo.

Adélia Prado


para o zé 

eu te amo, homem, hoje como
toda vida quis e não sabia,
eu que já amava de extremoso amor
o peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
de bordado, onde tem
o desenho cômico de um peixe — os
lábios carnudos como os de uma negra.
divago, quando o que quero é só dizer
te amo. teço as curvas, as mistas
e as quebradas, industriosa como abelha,
alegrinha como florinha amarela, desejando
as finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
pra escutar o que bate. eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
perdidas nas casas que habitamos, os fios
de tua barba. esmero. pego tua mão, me afasto, viajo
pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
aprendo. te aprendo, homem. o que a memória ama
fica eterno. te amo com a memória, imperecível.
te alinho junto das coisas que falam
uma coisa só: deus é amor. você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. meu coração vai desdobrando
os panos, se alargando aquecido, dando
a volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
o que não queria dizer amo também, o piolho. assim,
te amo do modo mais natural, vero-romântico,
homem meu, particular homem universal.
tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
a luz na cabeceira, o abajur de prata;
como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
eu beijo.

domingo, 5 de julho de 2015

Norbert Elias



Que ato do destino terá promovido o desenvolvimento das estruturas biológicas que facultaram aos descendentes humanos dos animais conquistarem o autodistanciamento necessário para aprenderem a falar e a dizer "eu" a respeito de si mesmos? E mais, que ato do destino terá permitido que os rostos relativamente impassíveis de nossos antepassados animais se transformassem nos rostos extraordinariamente móveis e individualizáveis que figuram entre os traços biológicos singulares do homem? 
Não conhecemos esses atos do destino. Não sabemos que circunstâncias peculiares, ao longo de milhões de anos, levaram os seres humanos a serem, ao que saibamos, a única espécie de organismo a adquirir um equipamento biológico que tornou não apenas possível, mas necessário, poder produzir e compreender, como seu principal meio de comunicação, configurações sonoras que diferiam de grupo para grupo. Tampouco sabemos até agora que acontecimentos repetitivos, durante milhões de anos, terão levado aos seres humanos a serem biologicamente dotados de uma fisionomia altamente individualizável, com uma musculatura facial dúctil, capaz de assumir marcas diferentes conforme a experiência individual. Mas os eventos dessa evolução são claramente compreendidos. Os seres humanos são os únicos organismos até hoje conhecidos a usarem um meio de comunicação primordial que é específico da sociedade e não específico da espécie, e são também a única espécie, dentre as que conhecemos, dotada de uma parte do corpo tão apta a trazer uma  marca individual diferente que, por meio dela, centenas de indivíduos são capazes, por longos períodos, e muitas vezes pela vida inteira, de reconhecerem uns aos outros como tais, como indivíduos diferentes.