sexta-feira, 21 de março de 2014

6.






carnis valles*

findou março
e eu [feito uma boba]
permaneço
naquelas noites de carnaval
o teu olhar encontrou o meu
em meio a multidão
o querer veio 
sem aval
sem espera
de fantasia, não fiz quimera
devore-me antes de qualquer coisa e
decifre-me só
quando o bloco chegar ao final

começou abril 
e eu não esqueço
não me abrace desse jeito
que o beijo teve 
um encaixe perfeito
entre rodopios e gargalhadas
a purpurina que depois impregnou teus lençóis
junto ao suor dos corpos feridos
de prazer e ternura
a carne nua
saciada à exaustão

os meses não pararam
o que havia de pagão já é passado
mas ressuscitou-me a fé
não fomos mais que três ou quatro dias de tudo
de um punhado de intimidade
de delícia, de medo, de ansiedade
e de um pacote de biscoitinho de queijo
mas em cada sorriso meu
[e dele sei que você gosta]
juro que deixo
uma promessa
que não é de espera
o que tenho 
não é pressa
e sim, uma saudade imensa
daquelas noites de festa

* A expressão latina carnis valles (carnis significa carne e valles significa prazeres) deu origem à palavra carnaval.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Górki



minhas universidades 

Curvado, apoiando as mãos nos joelhos, espiei por uma janela; através das rendas da cortina, pude ver uma toca quadrada, as paredes cinzentas eram iluminadas por um pequeno lampião com um quebra-luz, abaixo do lampião, com o rosto voltado para a janela, estava sentada uma garota, e ela escrevia. e então levantou o cabelo e, com  um porta-penas vermelho, ajeitou uma mecha de cabelo na têmpora. Seus olhos estavam semicerrados, o rosto sorria. Lentamente, dobrou a carta, fechou o envelope, passou a língua pela borda e, após jogar o envelope sobre a mesa, ameaçou-o  com um dedo pequeno - menor que o meu mindinho. Mas pegou a carta outra vez, rasgou a beirada do envelope, leu, fechou-a dentro de outro envelope, redigiu o endereço, curvada sobre a mesa, e brandiu a carta no ar, como uma bandeira branca. Girando, de braços erguidos, foi até um canto, onde ficava a sua cama, depois saiu dali, já sem a blusa de dormir - tinha os ombros redondos feito pãezinhos doces - , apanhou o lampião na mesa e desapareceu num canto. Quando a gente observa como se comporta uma pessoa completamente sozinha, dá a impressão de que ela está louca. Fiquei andando pelo pátio, pensando em como aquela moça vivia de forma estranha, quando estava sozinha em sua toca.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Yehuda Amichai


um homem e a sua vida

Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.

Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.

Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer. 

E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.

Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Rainer Maria Rilke


os cadernos de malte laurids brigge

Estou em Paris; quem o ouve fica alegre, os mais deles invejam-me. Têm razão. É uma grande cidade; grande e cheia de estranhas tentações. Pelo que me diz respeito, devo confessar que em certo sentido sucumbi perante elas. Parecem-me que não se pode dizer de outra forma. Sucumbi a estas tentações, e isso trouxe atrás de si certas transformações, senão no meu caráter, pelo menos na minha concepção de mundo e da vida, em todo o caso na minha vida. Uma compreensão totalmente diferente de todas as coisas formou-se em mim sob estas influências; há certas diferenças que me separam dos homens mais que tudo até agora. Um mundo transformado. Uma vida nova cheia de novas significações. De momento, é tudo um pouco difícil, por ser tão novo. Sou um principiante nas minhas próprias condições de vida.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

5.


azul é a cor mais quente

Quando alguém decide repousar um olhar demorado, cuidadoso e delicado sobre a vida das pessoas. E revelar as minúcias daquele vinco profundo entre o nariz e a porção superior dos lábios que se pronunciam em um sorriso, passam por sutis covinhas bem no canto da boca e terminam com os olhos, ainda ingênuos, acompanhando todo esse movimento. Depois, o abraço estanque que já não se derrete mais em corpos suados e exaustos de tanto amor. De tudo fica um pouco. De muito, é pouco que se encontra.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Wislawa Szymborska



autotomia

Diante do perigo, a holotúria se divide em duas:
deixando uma sua metade ser devorada pelo mundo,
salvando-se com a outra metade.

Ela se bifurca subitamente em naufrágio e salvação,
em resgate e promessa, no que foi e no que será.

No centro do seu corpo irrompe um precipício
de duas bordas que se tornam estranhas uma à outra.

Sobre uma das bordas, a morte, sobre outra, a vida.
Aqui o desespero, ali a coragem.

Se há balança, nenhum prato pesa mais que o outro.
Se há justiça, ei-la aqui.

Morrer apenas o estritamente necessário, sem ultrapassar a medida.
Renascer o tanto preciso a partir do resto que se preservou.

Nós também sabemos nos dividir, é verdade.
Mas apenas em corpo e sussurros partidos.
Em corpo e poesia.

Aqui a garganta, do outro lado, o riso,
leve, logo abafado.

Aqui o coração pesado, ali o Não Morrer Demais,
três pequenas palavras que são as três plumas de um voo.

O abismo não nos divide.
O abismo nos cerca. 


...

em perigo, a holotúria se divide em duas:
com uma metade se entrega à voracidade do mundo, 
com outra foge.

desintegra-se violentamente em ruína e salvação,
em multa e prêmio, no que foi e no que será.

no meio do corpo da holotúria se abre um abismo
com duas margens subitamente estranhas.

em uma margem a morte, na outra a vida.
aqui o desespero, lá o alento.

se existe uma balança, os pratos não oscilam.
se existe justiça, é esta.

morrer só o necessário, sem exceder a medida.
regenerar quanto for preciso da parte que restou.

também nós, é verdade, sabemos nos dividir.
mas somente em corpo e sussurro interrompido.
em corpo e poesia.

de um lado garganta, do outro o riso,
leve, logo sufocado.

aqui o coração pesado, lá non omnis moriar,
três palavrinhas apenas como três penas em voo.

o abismo não nos divide.
o abismo nos circunda.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Wislawa Szymborska


um minuto de silêncio por ludwika wawrzýnska*
(1975)


E tu aonde vais?
Se ali já só há fumo e fogo!
- Ficaram lá quatro crianças,
vou buscá-las!

Como é possível
assim de repente
desprender-se de si próprio?
Da ordem do dia e da noite?
Das neves do ano que vem?
Dos rubores das maçãs?
Da mágoa do amor
que nunca é demais?

Sem se despedir, nem ser despedida
sozinha a correr acode as crianças,
olhem só, trá-las em braços,
mergulhando no fogo até aos joelhos,
levando o fulgor no cabelo revolto.

Ela, que queria comprar um bilhete,
sair da cidade por um tempo,
escrever uma carta,
abrir a janela após a trovoada,
trilhar o caminho aberto no bosque,
espantar-se com as formigas,
ver como o lago se enruga
com o sopro do vento.

Um minuto de silêncio pelos mortos
perdura às vezes pela noite fora.

Sou testemunha ocular
do voo das nuvens e dos pássaros,
ouço a relva crescer
e sei como ela se chama,
decifrei milhões
de caracteres impressos,
segui com o telescópio
estrelas bizarras,
só que até hoje
ninguém me pediu socorro
e se acaso lamento
uma folha, um vestido, um poema –

De nós próprios só sabemos,
o que nos foi posto à prova.
É isto o que eu vos digo
deste meu coração que desconheço.


*Ludwika Wawrzyńska - professora primária que salvou de um incêndio quatro crianças, vindo a falecer em consequência das queimaduras sofridas.