domingo, 1 de novembro de 2015

Adélia Prado



amor feinho 

eu quero amor feinho.
amor feinho não olha um pro outro.
uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
tudo que não fala, faz.
planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
amor feinho é bom porque não fica velho.
cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Bill Bryson



em casa - uma breve história da vida doméstica 

(...) que a maior parte da história é realmente isto: as massas humanas fazendo suas atividades comuns. Até mesmo Einstein deve ter passado grandes trechos da vida pensando nas férias, ou no que comeu no jantar, ou no gracioso tornozelo da moça que descia do bonde do outro lado da rua. São coisas desse tipo que preenchem a nossa vida e os nossos pensamentos; e, no entanto, nós a tratamos como incidentais e indignas de séria consideração. Não sei quantas horas dos meus anos de escola foram gastas estudando o Compromisso do Missouri ou a Guerra das Rosas; mas foi imensamente mais do que me incentivaram ou permitiram dedicar à história do comer, dormir, fazer sexo e tentar se divertir.
Pensei, então que poderia ser interessante escrever um livro sobre as coisas comuns da vida - finalmente observá-las e tratá-las como se elas também fossem importantes. Observando a minha casa, fiquei surpreso e um pouco chocado ao perceber como eu sabia pouco sobre o mundo doméstico ao meu redor. Sentado à mesa da cozinha certa tarde, brincando distraidamente com o saleiro e o pimenteiro, ocorreu-me que eu não fazia a menor ideia do porquê, entre todas as especiarias do mundo, temos um apego tão duradouro a essas duas. Por que não pimenta e cardamomo, digamos? 
(...) O que descobri, para a minha grande surpresa, é que tudo que acontece no mundo - tudo que é descoberto, ou criado, ou ferrenhamente disputado - vai acabar, de uma forma ou de outra, na casa das pessoas. As guerras, as fomes, a Revolução Industrial, o Iluminismo - tudo isso está lá, no seu sofá e na sua cômoda, escondido nas dobras das suas cortinas, na maciez dos seus travesseiros, na tinta das suas paredes, na água das suas tubulações. Assim, a história da vida doméstica não é apenas uma história de camas, sofás e fogões, como eu vagamente supunha, mas sim do escorbuto e do guano, da Torre Eiffel e dos percevejos, dos ladrões e de cadáveres e de mais ou menos tudo o que já aconteceu. As casas não são refúgios contra a história. É nelas que os fatos históricos vão desembocar.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mia Couto



poema da despedida
  
não saberei nunca
dizer adeus
 
afinal,
só os mortos sabem morrer
 
resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
 
talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
 
não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
 
agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
 
nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
ainda assim,
escrevo

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Bill Nichols



introdução ao documentário 

Dito de outra forma, os documentários normalmente contêm uma tensão entre o específico e o geral, entre momentos únicos da história e generalizações. Sem a generalização, os documentários em potencial seriam pouco mais do que registros de acontecimentos e experiências específicas. E se não fossem nada além de generalizações, seriam pouco mais do que tratados abstratos. É a combinação das duas coisas, dos planos e cenas individuais que nos colocam num determinado tempo e lugar, e a organização desses elementos em um todo maior, que dão poder e fascínio ao vídeo e ao filme documentário. 

[...]

A seleção e o arranjo de sons e imagens são sensuais e reais; proporcionam uma forma imediata de experiência auditiva e visual, mas também se tornam, por intermédio da organização num todo maior, uma representação metafórica do que seja uma determinada coisa no mundo histórico. 

[...]

Pode ser que conheçamos a definição de dicionário para essas práticas sociais e, ainda assim, desejemos representações metafóricas para nos ajudar a compreender que valores associar a essas práticas sociais. Os documentários nos dão a sensação de que podemos entender como os outros atores sociais experimentam situações e acontecimentos que se encaixam em categorias familiares (vida familiar, assistência médica, orientação sexual, justiça social, morte e assim por diante). Os documentários proporcionam uma orientação sobre a experiência de outros e, por extensão, sobre as práticas sociais que compartilhamos com eles. 

Se aceitaremos como os nossos os pontos de vista e os argumentos dos documentários, isso depende muito do poder estilístico e retórico do filme. A oscilação entre o específico e o geral no documentário, entretanto, resulta da eficácia da permissão para que uma representação específica signifique (metaforicamente) uma orientação ou avaliação geral de uma determinada questão ou tema. A compreensão metafórica é muitas vezes a maneira mais significativa e persuasiva de nos convencer do mérito de um ponto de vista em relação a outros. 

[...]

Nos documentários, portanto, falamos de assuntos que ocupam nossa vida da forma mais apaixonada e perturbadora. Esses assuntos seguem os caminhos de nosso desejo, conforme chegamos a um acordo com o que significa assumir uma identidade, ter uma ligação íntima e particular com alguém e pertencer a uma coletividade. Identidade pessoal, intimidade sexual e pertença social são outra maneira de definir os assuntos do documentário. 

[...] 

O interesse desses cineastas e escritores não era abrir um caminho livre e desobstruído para o desenvolvimento de uma tradição documental que ainda não existia. Seu interesse e sua paixão eram a exploração dos limites do cinema, a descoberta de novas possibilidades e de formas ainda não experimentadas. O fato de alguns desses trabalhos terem se consolidado no que hoje denominamos documentário acaba por obscurecer o limite indistinto entre ficção e não-ficção, documentação da realidade e experimentação da forma, exibição e relato, narrativa e retórica, que estimularam esses primeiros esforços. A continuação dessa tradição de experimentação foi o que permitiu que o documentário permanecesse um gênero ativo e vigoroso. 

Uma forma corrente de explicar a ascensão do documentário inclui a história do amor do cinema pela superfície das coisas, sua capacidade incomum de captar a vida como ela é; capacidade que serviu de marca para o cinema primitivo e seu imenso catálogo de pessoas, lugares e coisas recolhidas em todos os lugares do mundo. Como a fotografia antes dele, o cinema foi uma revelação. As pessoas nunca tinham visto imagens tão fiéis a seus temas nem testemunhado movimento aparente que transmitisse sensação tão convincente de movimento real.

[...]

Assim como um conjunto mutável de circunstâncias, o desejo de propor maneiras diferentes de representar o mundo também contribui para a formação de cada modo. Modos novos surgem, em parte, como resposta às deficiências percebidas nos anteriores, mas a percepção da deficiência surge, em parte, da ideia do que é necessário para representar o mundo histórico de uma perspectiva singular num determinado momento.  

[...]

Fazemos bem em aceitar com reservas quaisquer afirmações de que um modo novo faz progredir a arte cinematográfica e capta aspectos do mundo como jamais foi possível. O que muda é o modo de representação. Um modo novo não é melhor, ele é diferente, embora a ideia de "aperfeiçoamento" seja frequentemente alardeada, especialmente entre os defensores e praticantes de consequências, e, por sua vez, acabará se mostrando vulnerável à crítica pelas limitações que um outro modo de representação prometa ultrapassar. Modos novos sinalizam menos uma maneira melhor de representar o mundo histórico do que uma forma dominante de organizar o filme, uma nova ideologia para explicar nossa relação com a realidade um novo conjunto de questões e desejos para inquietar o público.