terça-feira, 9 de junho de 2015

Hans Borli



uma coisa é necessária

uma coisa é necessária – aqui
neste nosso mundo díficil
de sem-abrigos e desterrados:

fixares residência em ti.

entra pela escuridão
e limpa a fuligem da lâmpada.

para que as pessoas na estrada
possam entrever uma luz
em teus olhos habitados.

(1974)

terça-feira, 2 de junho de 2015

Rainer Maria Rilke



Sou apenas um de vossos mais humildes monges,
fitando de minha cela a vida lá fora,
das pessoas mais distante que das coisas
…

Não me julgueis presunçoso se digo:
Ninguém realmente vive sua vida.
As pessoas são acidentes, vozes, fragmentos,
medos, banalidades, muita alegria miúda,
já crianças, envoltas em dissimulação,
quando adultas, máscaras; como rostos – mudas.

Penso muita vez: deve haver tesouros
onde se armazenam todas essas muitas vidas,
como armaduras ou liteiras, berços
que nunca portaram alguém francamente real,
vidas qual roupas vazias que não se sustentam
de pé e, despencando, agarram-se
às sólidas paredes de pedra abobadada.

E quando à noite vagueio
fora de meu jardim, imerso em tédio,
sei que os caminhos todos que se estendem
levam ao arsenal de coisas não vividas.

Não há árvore ali, como se a terra se guardasse
e como ao redor da prisão ergue-se o muro,
sem janela alguma, em seu sétuplo anel.
E seus portões, de trancas de ferro,
que repelem os que querem passar,
têm suas grades todas feitas por mãos humanas.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Jorge Luis Borges



funes, o memorioso

"Os dois projetos que indiquei (um vocabulário infinito para a série natural dos números, um inútil catálogo mental de todas as imagens da lembrança) são insensatos, mas revelam certa balbuciante grandeza. Deixam-nos vislumbrar ou inferir o vertiginoso mundo de Funes. Este, não o podemos esquecer, era quase incapaz de ideias gerais, platônicas. Não só lhe custava compreender que o símbolo genérico cachorro abrangesse tantos indivíduos díspares de diversos tamanhos e diversa forma; incomodava-o que o cachorro das três horas e catorze minutos (visto de perfil) tivesse o mesmo nome que o cachorro das três e quinze (visto de frente). Seu próprio rosto no espelho, suas próprias mãos, surpreendiam-no a cada vez. Relata Swift que o imperador de Lilliput podia discernir o movimento do ponteiro de minutos; Funes discernia continuamente os tranquilos avanços da corrupção, das cáries, do cansaço. Notava os progressos da morte, da umidade. Era o solitário e lúcido espectador de um mundo multiforme, instantâneo e quase intoleravelmente preciso. A Babilônia, Londres e Nova York pesaram com feroz esplendor sobre a imaginação dos homens; ninguém, em suas torres populosas ou em suas urgentes avenidas, sentiu o calor e a pressão de uma realidade tão inexaurível como a que a noite e dia convergia sobre o infeliz Ireneo, em seu pobre arrabalde sul-americano. Para ele, dormir era muito difícil. Dormir é distrair-se do mundo; Funes, de costas no catre, na sombra, ficava imaginando cada greta e cada moldura das casas certas que o rodeavam. (Repito que o menos importante em suas lembranças era mais minucioso e mais vivo que nossa percepção de um prazer físico ou de um tormento físico.) Para o leste, num trecho de quarteirão incompleto, havia casas novas, desconhecidas. Funes imaginava-as pretas, compactas, feitas de treva homogênea; nessa direção voltava o rosto para dormir. Também costumava se imaginar no fundo do rio, embalado e anulado pela corrente. 

Tinha aprendido sem esforço o inglês, o francês, o português, o latim. Suspeito, contudo, que não fosse muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo entulhado de Funes não havia senão detalhes, quase imediatos.

A tímida claridade da madrugada entrou pelo pátio de terra.

Então vi a cara da voz que havia falado a noite toda. Ireneo tinha dezenove anos; nascera em 1868; pareceu-me monumental como o bronze, mais antigo que o Egito, anterior às profecias e às pirâmides. Pensei que cada uma de minhas palavras (que cada uma de minhas atitudes) perduraria em sua implacável memória; tolheu-me o temor de multiplicar gestos inúteis. 

Ireneo Funes morreu em 1889, de uma congestão pulmonar."

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Wislawa Szymborska



repenso o mundo 

repenso o mundo, segunda edição,
segunda edição corrigida,
aos idiotas o riso,
aos tristes o pranto,
aos carecas o pente, 
aos cães botas.

eis um capítulo: a fala dos bichos e das plantas, 
com um glossário próprio 
para cada espécie. 
mesmo um simples bom dia
trocado com um peixe,
a ti, ao peixe, a todos
na vida fortalece.

essa há muito pressentida,
de súbito revelada,
improvisação da mata.
essa épica das corujas!
esses aforismos do ouriço
compostos quando imaginamos
que, ora, está só adormecido!

o tempo (capítulo dois)
tem o direito de se meter
em tudo, coisa boa ou má. 
porém - ele que pulveriza montanhas
remove oceanos e está 
presente na órbita das estrelas, 
não terá o menor poder
sobre os amantes, tão nus
tão abraçados, com o coração alvoroçado
como um pardal na mão pousado. 

a velhice é uma moral
só na vida de um marginal.
ah, então todos são jovens!
o sofrimento (capítulo três)
não insulta o corpo.
a morte
chega com o sono.

e vais sonhar
que nem é preciso respirar, 
que o silêncio sem ar
não é uma música má,
pequeno como uma fagulha,
a um toque te apagarás.

morrer, só assim. dor mais dolorosa
tiveste segurando nas mãos uma rosa
e terror maior sentiste ao som
de uma pétala caindo no chão. 

o mundo, só assim. só assim
viver. e morrer só esse tanto.
e todo o resto -  é como Bach
tocado por um instante
num serrote.

sábado, 2 de maio de 2015

Hannah Arendt



a condição humana 

"a única solução possível para o problema da irreversibilidade - a impossibilidade de se desfazer o que se fez, embora não se soubesse nem se pudesse saber o que se fazia - é a faculdade de perdoar. a solução para o problema da imprevisibilidade, da caótica incerteza do futuro, está contida na faculdade de prometer e cumprir promessas. as duas faculdades são aparentadas, pois a primeira delas - perdoar - serve para desfazer os atos do passado, cujos "pecados" pendem como a espada de Dâmocles sobre cada nova geração; a segunda - obrigar-se através de promessas - serve para criar, no futuro, que é por definição um oceano de incertezas, certas ilhas de segurança, sem as quais não haveria continuidade, e menos ainda durabilidade de qualquer espécie, nas relações entre os homens."

sábado, 11 de abril de 2015

18.


esperança

outro dia, passei embaixo da tua janela. 
e foi tão fácil lembrar de você. 
a memória foi,
solta 
como a menina que saltava do carro, 
apressada de tanta paixão, 
e se punha a chamar teu nome. 
por mais que você nunca demorasse, 
o descanso só vinha com teus olhos azuis, 
que se abriam no alto, entre o céu e eu, 
junto com o sorriso mais sincero.
a cena se repetia a cada visita,
exceto em um dia ou outro,
de humores mais arredios.
no mais, era muito fácil me apaixonar por você.
e a recordação é tão suave,
que a simples descrição 
tem um tom quase infantil

hoje, o nosso amor está em outro lugar
e isso não é um problema
mas essa que sou eu agora
com o peito roído de outras histórias
se acalenta na tua lembrança
no tempo daquela coragem
no tempo em que não existia o medo
de me deixar comover

[como você gosta de dizer por aí
vim te ver
só pra lembrar
quem sou eu]