sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Virginia Woolf



juntos e à parte

de tudo o que existe, nada é tão estranho como as relações humanas, pensou ela, com suas mudanças, sua extraordinária irracionalidade, pois o desagrado que ela havia sentido já era agora quase amor intenso e arrebatado, mas, tão logo essa palavra "amor" lhe ocorreu, ela a rejeitou, pensando novamente quão obscura era a mente, com suas pouquíssimas palavras para todas essas percepções surpreendentes, essas alternâncias de prazer e dor. Pois que nome se dava àquilo? Era o que ela agora sentia, o retraimento da afeição humana, o desaparecimento de Serle e a necessidade instantânea sob a qual se achavam ambos de encobrir o que era tão desolador, tão degradante para a natureza humana, que todos tentavam enterrá-lo em recato para eximir-se à visão - esse retraimento, essa violação da confiança e, procurando uma fórmula decorosa, reconhecida e aceita, de funeral, ela disse:

"Por mais que façam, não conseguirão, é claro, estragar Canterbury."

Ele sorrriu; aceitou a frase; cruzou as pernas ao contrário. Ela fez seu papel; ele, o dele. E assim as coisas terminaram. Veio logo sobre ambos essa paralisante cessação de sentimento, quando nada irrompe da mente, quando suas paredes parecem de ardósia; quando o vazio quase dói, e os olhos petrificados e fixos veem o mesmo ponto - uma forma, um balde de carvão - com uma exatidão que é aterradora, pois nenhuma emoção, nenhuma ideia, nenhuma impressão de qualquer tipo surge para alterá-la, modificá-la, embelezá-la, uma vez que as fontes do sentir parecem lacradas e enrijecendo-se a mente, enrijece-se também o corpo; fortemente estatuesco, sem deixar que mr. Serle ou miss Anning pudessem se mexer ou falar, e sentindo-se eles como se um encantador os tivesse salvo, e a fonte fez a vida correr por todas as veias, quando Mira Cartwright, dando um malicioso tapinha no ombro de mr. Serle, disse:

"Eu o vi no Meistersinger, passando bem na minha frente. Seu malvado", disse miss Cartwright, "não merece que eu volte a lhe dirigir a palavra." 

E eles puderam separar-se. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

13.



raízes 

tenho um avô japonês.
quando uma de suas filhas 
[temporãs do casamento com a esposa brasileira] 
fala um alegre "eu te amo, pai", 
ele dá um sorriso doce e tímido 
[daquele em que a boca rasga pouco, mas os olhos apertam bastante]
e responde baixinho:
igualmente.

- eu vim daí. 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

12.



ebulição

e, nestes dias,
fomos apenas vapores
que embaçavam a janela
e  sequer permitiam-me ver
a expressão do teu rosto
enquanto partia

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Jan Gehl



cidades para pessoas 

como já mencionado, as atividades de ver e ouvir são as principais categorias de contato social. são também as formas de contato que mais podem ser influenciadas pelo planejamento urbano. os convites basicamente determinam se os espaços da cidade têm a vitalidade que favorece o encontro entre as pessoas. a questão é importante porque esses contatos passivos – de ver e ouvir – funcionam como pano de fundo e como trampolim para as outras formas de contato. através da observação, do ouvir e experienciar os outros, juntamos informações sobre as pessoas e a sociedade em torno de nós. é um princípio.

experienciar a vida na cidade é também um entretenimento estimulante e divertido. as cenas mudam a cada minuto. há muito a se ver: comportamentos, rostos, cores e sentimentos. e essas experiências estão relacionadas a um dos mais importantes temas da vida humana: as pessoas.

essa declaração – "o homem é a maior alegria do homem" – vem de Hávamál, um poema épico islandês de mais de mil anos que, sucintamente, descreve o encanto e interesse humano por outras pessoas. nada é mais importante ou fascinante.” 

Jón Bong-gón


lirismo

chovia
até o vento preso na árvore
se dilacerava encharcado

agarrado ao meu braço - você
chovia também nessa ruela
onde caía a noite

e na escuridão que se intumescia de chuva
duas mãos envolveram-me o rosto
a perguntar

na voz mais suave
na voz mais quente

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Alain de Botton



a arte de viajar 

I. da expectativa

"Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda - em todo o seu ardor e seus paradoxos - como nossas viagens. Elas expressam - por mais que não falem - uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos - ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático. Somos inundados de conselhos sobre os lugares aonde devemos ir, mas ouvimos pouquíssimo sobre por que e como deveríamos ir - se bem que a arte de viajar pareça sustentar naturalmente uma série de perguntas nem tão simples nem tão triviais, e cujo estudo poderia contribuir modestamente para uma compreensão do que os filósofos gregos denominaram pelo belo termo eudaimonia ou desabrochar humano."

                                                                ..............................

"Se somos propensos a esquecer tudo o que há no mundo além daquilo que prevemos, talvez as obras de arte tenham um pouco de culpa, pois nelas encontramos em atividade o mesmo processo de simplificação ou seleção que atua na imaginação. Os relatos artísticos envolvem abreviações radicais daquilo que a realidade nos impingirá. (...) O fato, porém, é que nunca se viaja simplesmente uma tarde inteira. Estamos sentados num trem. Dentro de nós, é estranha a digestão do almoço. O tecido do estofamento é cinza. Olhamos pela janela para um campo. Voltamos a olhar para o interior do trem. Uma quantidade de ansiedades gira pelo consciente. Percebemos uma etiqueta identificadora colada numa mala no porta-bagagens acima dos bancos à nossa frente. Tamborilamos no peitoril da janela. Um pedaço de fio fica preso numa unha quebrada num dedo indicador. Começa a chover. Uma gota  abre um caminho enlameado na janela suja de pó. Ficamos pensando onde poderá estar nossa passagem. Voltamos a olhar para o campo. Continua a chover. Afinal, o trem começa a se movimentar. Passa por uma ponte de ferro, e em seguida pára de modo inexplicável. Uma mosca pousa na janela. E ainda assim poderíamos ter chegado somente ao final do primeiro minuto de um relato abrangente dos acontecimentos que se ocultam por trás da frase enganosa 'ele viajou a tarde inteira'.

Um contador de histórias que nos fornecesse tamanha profusão de detalhes rapidamente provocaria exasperação. Infelizmente, a própria vida costuma assumir esse modo de narração, deixando-nos exaustos com repetições, ênfases equivocadas e enredos incoerentes. Ela insiste em nos mostrar Bardak Electronics, a alça de segurança no carro, um cachorro sem dono, um cartão de Natal e uma mosca que primeiro pousa na borda e depois no centro de um cinzeiro sobrecarregado.

E isso explica o curioso fenômeno pelo qual pode ser mais fácil experimentar os elementos valiosos na arte e na expectativa que na realidade. A imaginação artística e da expectativa omitem e comprimem. Elas eliminam os períodos de tédio e direcionam nossa atenção para os momentos críticos. Desse modo, sem mentir nem enfeitar a verdade, elas conferem à vida uma vivacidade e coerência que lhe pode faltar na confusão indistinta do presente."

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Milan Kundera



a arte do romance

o espírito do romance é o espírito de complexidade. Cada romance diz ao leitor: "as coisas são mais complicadas do que você pensa". essa é a eterna verdade do romance que, entretanto, é ouvida cada vez menos no alarido das respostas simples e rápidas que precedem a questão e a excluem. para o espírito de nosso tempo, é Anna ou então Karenin que tem razão, e a velha sabedoria de Cervantes que nos fala da dificuldade de saber e da inatingível verdade que parece embaraçosa e inútil.
o espírito do romance é o espírito de continuidade: cada obra é a resposta às obras precedentes; cada obra contém toda a experiência anterior do romance. Entretanto, o espírito de nosso tempo está fixado sobre a atualidade, que é tão expansiva, tão ampla, que expulsa o passado do nosso horizonte e reduz o tempo ao único segundo presente. incluído nesse sistema, o romance não é mais obra (coisa destinada a durar, a unir o passado ao futuro), mas acontecimento da atualidade como outros acontecimentos; um gesto sem amanhã.

...

o romance não examina a realidade mas sim a existência. a existência não é o que aconteceu, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo aquilo que o homem pode tornar-se, tudo aquilo de que é capaz. os romancistas desenham o mapa da existência descobrindo esta ou aquela possibilidade humana.